Memórias de Alice

14 de Março de 1966. Domingo, às 3:30 pm.

O dia estava chuvoso. Algumas pessoas que, com sorte, previram a chuva, andavam com seus guarda-chuvas, com um sorriso no rosto, e um ar de “Eu sabia que iria chover uma hora ou outra”. Outras, corriam, encharcadas, a caminho de suas casas. Na calçada estava um menino sentado, seu cabelo e suas roupas completamente molhadas. Observava a chuva cair e as pessoas correndo, não se importava se iria ficar resfriado depois de se divertir tanto naquela tarde chuvosa. Havia fugido de casa. E estava orgulhoso por quebrar as regras.

- Fico imaginando o castigo que vou levar. - Murmurou para si mesmo e depois riu do que disse. Mas também tinha medo do que iria acontecer. E se seus pais o mandassem embora? - Não, não fariam isso. O que aconteceria depois? 

Tirou os sapatos. Eram tão velhos, que alguns buracos se apareceram depois de ter corrido tanto para longe de casa. Usa-los ou não, não faria diferença agora. Seus pés já estavam molhados e a primeira coisa que fez foi sujá-los ainda mais. As poucas pessoas que estavam na rua o observaram. Ele podia escutar claramente os comentários. As pessoas diziam “não faça isso”, “vai ficar resfriado”, “onde estão seus pais?”, mas nenhuma delas não se importava na verdade, e passavam rápido, para longe da criança sem pais que pulava nas poças de lama no meio da rua. Nenhuma delas queria se envolver se alguma coisa acontecesse com ele. 

Depois de ter se sujado completamente, olhar para as pessoas e dar risada sobre os comentários, sentir-se rebelde e independente, olhou em volta, rapidamente, quase não reparando o vulto vermelho que o encarava. Virou-se novamente, e uma garota de roupas vermelhas, combinando com seu guarda-chuva, sorriu. 

- Olá. - Ela disse - Não tem medo de ficar resfriado?

Ele não respondeu. Deu as costas e andou para longe dela.

- O gato comeu sua língua?

- Porque não vai embora? - Ele respondeu furioso. 

- Porque quero ficar com você.

Ela sorriu e as bochechas dele coraram levemente.

- Eu não quero sua companhia. 

- Qual é o seu nome?

Ele a encarou e deu risada por ela ter ignorado completamente o que ele acabara de falar. Ele se virou e procurou se distanciar da garota estranha de cabelo curto. Ela o acompanhou e tentou combrí-lo também com o guarda-chuva, embora não adiantasse muito, pois ele se distanciava a cada tentativa. 

- Meu nome é Alice.

- Quem perguntou? - Ele riu.

- Esta fugindo de casa? - Ela olhou para os sapatos sujos, segurados pelos cadarços. 

- Sim.

- Uma aventura. - Alice sorriu, o que fez o menino revirar os olhos.

Ela olhou em volta e percebeu que não reconhecia o lugar.

- Para onde vamos? - perguntou.

- Você não vai. 

Ela riu. 

- Qual é o seu nome?

Ele ignorou.

- Se eu falar, você vai embora? - Ele a encarou, e só agora, tinha percebido as sardas no rosto dela.

- Na verdade, não.

Os dois riram.

Finalmente, Alice conseguira cobri-lo sem que ele se afastasse. Aparentemente, ele havia se conformado. A chuva havia engrossado um pouco, e George a puxou para debaixo de uma árvore. Os dois sentaram. Ali estava seco. A árvore era alta e cheia de folhas. O abrigo perfeito. Os dois observaram a rua, e não havia ninguém. 

- Linnel. 

- O que?

- George Linnel. Meu nome.

- Bonito. - Ela sorriu. - Porque fugiu de casa?

Ele hesitou por um momento. Alice o encarava, seu cabelo estava um pouco seco agora e ela percebeu como seus cachos eram bonitos. 

- Quero tocar violão. - Ele deu um sorriso pequeno - Minha família não gosta disso nem um pouco.

- Só por isso?

- Não. 

Alice sentiu alguns pingos de chuva caírem sobre seu ombro. Passou a mão sobre ele e voltou a encarar George. 

- Nunca vou ser o melhor filho para eles. Sinto que eles não gostam muito de mim.- Algumas lágrimas escorregaram pelo seu rosto.

Alice o abraçou. 

- São só gostas de chuva. - Ele afirmou, limpando o rosto e tentando esconder os olhos vermelhos e a voz tremula.

Alice riu. 

- Posso te contar um segredo? - Ela sorriu.

Ele balançou de leve a cabeça, em sinal positivo.

Ela sussurrou:

- Eu gosto de você. - Ela sorriu - Sempre que estiver triste, me abrace. Eu serei teu refúgio.

Ele a abraçou e murmurou ”obrigado” no ouvido dela.

- E você? Porque não esta em casa? - George perguntou.

- Eu poderia te dizer o verdadeiro motivo. - Alice o olhou, e ele percebeu um ar de tristeza em seus olhos. Ele esperava por uma resposta. - Mas eu prefiro dizer que eu sai porque tinha que encontrar você.

Ele sorriu.

- Obrigado, Alice. 

- De nada, George.

Os dois passaram o resto da tarde chuvosa, sentados em silêncio. No fundo, Alice sabia que era o começo de um “para sempre”.

Primeiro encontro de Alice e George, há 20 anos atrás.


Se alguém tem alguma ideia, sugestão ou crítica, por favor, escreva no submit :3


  • - Tem medo de monstros?
  • - Monstros não me assustam - ela sorriu.
  • - E o que te assusta, pequena? - ele retribuiu o sorriso
  • - Eu pareço estar com medo?
  • - Todo mundo tem um medo.
  • - É - Ela fechou os olhos - Eu tenho medo.
  • - De morrer, talvez?
  • - Não, a morte é boa. - Ela riu baixinho - Eu tenho medo das pessoas.

Anonymous murmurou:
Que saudade eu tava daqui! Porque sumiu ?

Own, eu sumi porque eu tive uns problemas, não tava com inspiração nenhuma pra nada :/



Que saudade de vocês, seus lindos. Eu vou arrumar o theme, a música, rescrever alguns textos e até um cap novo. Mas antes preciso saber como vocês estão? psé. Me contem na ask!


Alice: Esses mistérios de livros e filmes não me impressionam,George.

George: Não gosta desse suspense, antes de saber quem é o vilão?

Alice: Não. Os pequenos mistérios do amor são mais impressionantes. Nunca sabemos como, onde, ou quando passamos a amar alguém. (xícaradecafé)